sábado, 24 de abril de 2010

4° Domingo da Páscoa: O domingo do Bom Pastor


Neste domingo, dedicado à figura do Bom Pastor, somos convidados a ouvir a voz do Senhor que nos chama e nos indica o caminho a seguir: “Eu Sou o Bom Pastor e conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10,14). Aqui muitas vezes caímos na tentação de pensar que todos nós somos ovelhas, animais, e se pegarmos o sentido do evangelho somos ovelhas, assim como o texto nos diz.

Contudo, somos ovelhas, mas ovelhas que pensam, ovelhas que falam, ovelhas que sabem dizer sim e não. Somos ovelhas no sentido de dar uma resposta à vontade de Deus e aos seus apelos. No evangelho de João, Jesus retoma a imagem de Pastor do Antigo Testamento aplicando-a a si mesmo: “Eu sou o verdadeiro pastor” (Jo 10,11-14). Jesus é o “bom pastor” porque não tem medo de lutar, a ponto de dar a própria vida pelo rebanho que ama (Jo 10, 11).

Ao seguir Jesus assumimos as suas conseqüências que é o dar a vida pelas suas ovelhas, fazer a sua vontade. Jesus amou de tal maneira a cada um de nós que deu a sua vida, o bem mais precioso que possuía para nos salvar, e muitas vezes não conseguimos dizer o nosso sim sem medo e sem medidas. Pois quando dizemos o nosso sim sempre nos perguntamos: o que vou ganhar com isso? Jesus é o nosso exemplo, onde devemos dar a vida sem limites uns pelos outros. A vida que Jesus nos dá é a vida de comunhão que ele tem com Pai. Ser ovelhas ainda nos mostra seguir os passos de Jesus, amar como Jesus amou, sentir como Jesus sentiu, viver como Jesus viveu.

O domingo do Bom Pastor nos remete para a realidade que vem acontecendo na mídia, às críticas e os ataques ao Santo Padre, o Papa Bento XVI. A sucessão Apostólica que lhe foi confiada, nos remete aos primórdios da Igreja onde ser o Bom Pastor era aquele que não tinha muito amor ao seu “pescoço”, arriscando sua vida em favor do Evangelho. Ser pastor como o padre, os bispos, e até mesmo o Papa é seguir na pregação do evangelho com muito amor e confiança, sem medir esforços para defender o povo, o rebanho de Cristo.

“Sou bom Pastor ovelhas guardarei não tenho outro oficio e nem terei quantas vidas eu tiver eu lhes darei”, assim diz o canto. Mesmo que as dificuldades e as dores sejam grandes, o Pastor da à vida por suas ovelhas como vemos o Papa Bento XVI na Ilha de Malta acolhendo a todos inclusive as vítimas. Pois, o bom pastor é aquele que não exclui ninguém, mas que ama e acolhe de coração.

Senhor Bom Pastor nos mostre o caminho de como ser verdadeiros pastores, dá-nos sabedoria para te compreender, dá-nos tua luz para seguir-te sem medida, mas seguir-mos com o coração, aprendendo de ti que “és manso e humilde de coração” (MT 11,29).

Joseir Sversutti
Seminarista 3° ano de Teologia

quinta-feira, 22 de abril de 2010

ENCONTRO VOCACIONAL


Você jovem que sente o chamado de Deus à vida presbiteral, tendo como centro de sua vida o exemplo e a imagem de Cristo Bom Pastor, venha fazer o seu discernimento vocacional.

Venha participar do encontro vocacional neste final de semana, no Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória, em Maringá.

O Senhor te chama a trabalhar na sua messe. Não temas em responder: "Tu me chamaste, Senhor, aqui estou. Fala que teu servo escuta" (I Sm 3,8).


Dia 22 de abril: Dia Mundial do Planeta Terra



Estamos matando aos poucos a Mãe que nos gera

Em meados do século XVIII, na Inglaterra, aconteceu o grande embate do século: a Revolução Industrial, que se alastrou como fogo em pólvora, e a partir do século XIX já se falava de revolução industrial em todo o mundo. Achavam que essa seria a menina dos olhos da humanidade. O primeiro produto industrializado foi o capitalismo, sistema de morte, escravagista, que gerou desigualdade, miséria, concentrando toda a riqueza nas mãos de poucos que dia e noite buscaram lucrar.

Aquela que deveria ser a menina dos olhos da humanidade, hoje está preocupando. A razão é por causa da produção e do consumismo exacerbados que estão deixando a Terra doente, falida. Consumimos 30% a mais do que a natureza pode oferecer. Com a superprodução para tentar atender a demanda, toneladas de dióxido de carbono são lançados na atmosfera diariamente, ocasionando o superaquecimento global, e diante de tais agressões a natureza dá a sua resposta, isso se percebe nos vendavais, no derretimento das geleiras, tempestades, enchentes, tornados, chuva ácida, deslizamentos, terremotos, maremotos, oscilação de temperatura e estação do ano e em tantos outros fatores. E estamos nos perguntando: Será que chegou o fim dos tempos? Será que esse é o fim da humanidade? É possível fazer alguma coisa?

O homem ainda não caiu em si que está vivendo o ‘midismo’ (na mitologia grega, tudo o que o rei Midas tocava virava ouro) , tudo o que é tocado por ele vira mercadoria: terra, água, madeira, animais e até o próprio homem são expostos em vitrines. E na sociedade do quero mais, o homem não percebe que está usando mal os recursos naturais, e não tem consciência de que tudo vai acabar em curto prazo, pois a natureza é limitada.

A mãe natureza está em “gritos de parto”. Os rios parecem “veias entupidas pelo colesterol da poluição e do lixo”. O desmatamento e as queimadas estão tomando conta das florestas, os animais morrem muitas vezes queimados ou por falta de comida, desencadeando um enorme desequilíbrio ambiental. E nos perguntamos: Por que há tantos bichos, insetos?

A mãe que nos dá o sustento está agonizando, do seu ventre vem o pedido de socorro, o basta, o não aguento mais. Estudiosos afirmam que temos quinze anos para reverter essa situação, pois caso contrário a humanidade vai perecer a ponto de ser extinta ou grande parcela dela. Estamos caminhando para o fim.

A humanidade perdeu a noção do belo. Deus criou o homem para cultivar a terra. A terra não nos pertence porque nós somos a terra, Deus criou o homem do barro Gn 2,7, por isso não podemos agredi-la, porque estaríamos agredindo a nós mesmos, a nossa própria essência.

Não creamos tão somente que os carrascos que martirizam a natureza são os latifundiários, indústrias, madeireiras clandestinas, temos a nossa parcela de culpa. A natureza sangra desde o lixo que queimamos no fundo do nosso quintal, o papel de bala que jogamos na rua, o lixo que jogamos no terreno baldio até a torneira que fica horas pingando em nossas casas. Somos responsáveis por 10% do desperdício de água e 90% são das irrigações irregulares e das indústrias, mas nem por isso devemos deixar de fazer a nossa parte.

Não permitamos que o cosmo perca a sua sacralidade. Enxerguemos a ação de Deus na história através da beleza que Ele criou: o pão, o vinho, o óleo, a água, o homem e a mulher. Elementos fundamentais e necessários para a Sua atuação sacramental na vida da humanidade. Mas se Deus se faz presente na vida do seu povo por meio da beleza que Ele criou como poderemos celebrar se a criação está sofrendo? Como poderemos celebrar o mistério Pascal sem levar em conta a beleza que Deus criou?

A natureza está sofrendo, não sejamos indiferentes com o que diz respeito à ecologia, temos de ser “homens e mulheres globais e planetários (as)”, defensores das causas ambientais, temos pouco tempo e muito trabalho a ser feito para reverter a situação. Há possibilidade de dias melhores, não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje. Denunciemos as máquinas da morte. Lutemos pela vida a fim de deixarmos um mundo melhor para as futuras gerações, afinal de contas aqui é a nossa casa, é aqui que escrevemos a nossa história.

Alécio Carini
Seminarista 2º Ano de Teologia

terça-feira, 20 de abril de 2010

2º Encontro dos Seminaristas das Províncias Eclesiásticas de Maringá e Londrina




Um grande momento de reflexão e confraternização. De fato foi o instante de conhecer outros vocacionados que também como nós são chamados à vocação presbiteral. Esse encontro reuniu seminaristas das etapas de formação: Seminário Menor, Propedêutico, Filosofia e Teologia, tendo recebido em torno de 160 seminaristas e contando com a presença de cerca de 15 padres durante todo o dia.

O dia começou com a acolhida dos seminaristas que foi feita pelos seminaristas da Arquidiocese de Londrina que sediava o mesmo no Instituto de Teologia Paulo VI. Seguimos o dia com um belo café da manhã, onde logo após deu-se início a oração que foi preparada pelos seminaristas da Diocese de Campo Mourão, seguido do Hino do Ano Sacerdotal entoado por todos os presentes.

Seguindo a programação do dia, tivemos um momento de reflexão sobre a missão do sacerdote, e logo depois foram divididos em vários grupos de debate e discussão, que retornaram para uma plenária, em torno do assunto proposto. O dia teve continuidade com a celebração da Santa Missa que foi presidida por Dom Orlando Brandes (Arcebispo de Londrina) e concelebrada por todos os padres presentes. A liturgia da Santa Missa ficou a cargo dos seminaristas da Arquidiocese de Maringá, da etapa da teologia contando com a ajuda dos seminaristas da diocese de Umuarama. Os cantos ficaram na responsabilidade dos seminaristas Neri (Maringá), Diego Dias e Eduardo Moreira (Cornélio Procópio).

Um belo almoço foi servido para todos. E logo depois, todos os presentes tiveram a oportunidade de conhecer as estruturas do Seminário Paulo VI a fim de conhecê-lo, já que por muitos anos o mesmo foi a residência dos seminaritas de várias dioceses do Paraná para a formação teológica. O dia de confraternização encerrou-se com várias dinâmicas e brincadeiras para alegrar o pessoal. A alegria de tal encontro manifesta-se nos vários instantes: nas orações que nos unem na mesma fé e no mesmo objetivo, rezar por nossas vocações e pelas vocações do mundo inteiro a fim de que Cristo envie mais operários a sua messe, nos momentos de reflexão e discussão onde refletimos a atualidade do sacerdote e do seminarista na Igreja de hoje; e também, nos momentos de diversão onde fortificamos os laços de unidade entre nossas dioceses e nossos seminaristas a fim de termos um presbitério que caminhe unido como família enxertados no coração de Cristo, Pastor e Cabeça da Igreja, que é seu corpo.

Aos seminaristas perseverança e paz no discernimento de sua caminhada vocacional. Aos presbíteros luz e coragem para seguirem nos passos de Jesus, Bom Pastor. E a todos a graça e a paz de Deus em nossas vidas para continuarmos a escutar a voz do Pai que nos chama a trabalhar na sua messe.


Confira as fotos desse encontro:

Neri Dione Squisati
Seminarista 1º ano de Teologia

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Carta de Dom Cláudio Hummes: Encerramento do Ano Sacedotal


O ENCERRAMENTO DO ANO SACERDOTAL

Roma, 12 de abril de 2010

Caros Presbíteros,

A Igreja sem dúvida está muito feliz com o Ano Sacerdotal e agradece ao Senhor por haver inspirado o Santo Padre a decidir sua realização. Todas as informações que chegam aqui a Roma sobre as numerosas e multíplices iniciativas programadas pelas Igrejas locais no mundo inteiro para realizar este ano especial constituem a prova de como foi bem recebido e - podemos dizer – correspondeu a um verdadeiro e profundo anseio dos presbíteros e de todo o povo de Deus. Estava na hora de dar uma atenção especial de reconhecimento e de empreendimento em favor do grande, laborioso e insubstituível presbitério e de cada presbítero da Igreja.

É verdade que alguns, mas proporcionalmente muito poucos, presbíteros cometeram horríveis e gravíssimos delitos de abuso sexual contra menores, fatos que devemos rejeitar e condenar de modo absoluto e intransigente. Devem eles responder diante de Deus e diante dos tribunais, também civis. Mas estamos antes de mais nada do lado das vítimas e queremos dar-lhes apoio tanto na recuperação como em seus direitos ofendidos.
Por outro lado, os delitos de alguns não podem absolutamente ser usados para manchar o inteiro corpo eclesial dos presbíteros. Quem o faz, comete uma clamorosa injustiça. A Igreja, neste Ano Sacerdotal, procura dizer isto à sociedade humana. Qualquer pessoa de bom senso e boa vontade o entende.

Dito necessariamente isso, voltamos a vós, caros presbíteros. Queremos dizer-vos, mais uma vez, que reconhecemos o que sois e o que fazeis na Igreja e na sociedade. A Igreja vos ama, vos admira e vos respeita. Sois também alegria para nossa gente católica no mundo, que vos acolhe e apoia, principalmente nestes tempos de sofrimentos.
Daqui a dois meses chegaremos ao encerramento do Ano Sacerdotal. O Papa, caros sacerdotes, convida-vos de coração a vir de todo o mundo a Roma para este encerramento nos dias 9, 10 e 11 de junho próximo. De todos os países do mundo. Dos países mais próximos de Roma dever-se-ia poder esperar milhares e milhares, não é verdade? Então, não recuseis o convite premuroso e cordial do Santo Padre. Vinde e Deus vos abençoará. O Papa quer confirmar os presbíteros da Igreja. A vossa presença numerosa na Praça de São Pedro constituirá também uma forma propositiva e responsável de os presbíteros se apresentarem, prontos e não intimidados, para o serviço à humanidade, que lhes foi confiado por Jesus Cristo. A vossa visibilidade na praça, diante do mundo hodierno, será uma proclamação do vosso envio não para condenar o mundo, mas para salvá-lo (cfr. Jo 3,17 e 12,47). Em tal contexto, também o grande número terá um significado especial.

Para essa presença numerosa dos presbíteros no encerramento do Ano Sacerdotal, em Roma, há ainda um motivo particular, que a Igreja hoje tem muito a peito. Trata-se de oferecer ao amado Papa Bento XVI nossa solidariedade, nosso apoio, nossa confiança e nossa comunhão incondicional, diante dos frequentes ataques que lhe são dirigidos, no momento atual, no âmbito de suas decisões referentes aos clérigos incursos nos delitos de abuso sexual contra menores. As acusações contra o Papa são evidentemente injustas e foi demonstrado que ninguém fez tanto quanto Bento XVI para condenar e combater corretamente tais crimes. Então, a presença massiva dos presbíteros na praça com Ele será un sinal forte da nossa decidida rejeição dos ataques de que è vítima. Portanto, vinde também para apoiar o Santo Padre.

O encerramento do Ano Santo um encerramento, mas um novo início. Nós, o povo de Deus e os pastores, queremos agradecer a Deus por este período privilegiado de oração e de reflexão sobre o sacerdócio. Ao mesmo tempo, propomo-nos de estar sempre atentos ao que o Espírito Santo quer nos dizer. Entretano, voltaremos ao serviço de nossa missão na Igreja e no mundo com alegria renovada e com a convicção de que Deus, o Senhor da história, fica conosco, seja nas crises seja nos novos tempos.

A Virgem Maria, Mãe e Rainha dos sacerdotes, interceda por nós e nos inspire no seguimento de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.

Cardeal Cláudio Hummes
Arcebispo Emérito de São Paulo
Prefeito da Congregação para o Clero

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Vem aí o 2º Encontro dos Seminaristas das Províncias de Maringá e Londrina


No próximo sábado, 17, a partir das 9h será realizado em Londrina, no Seminário Paulo VI, o 2º Encontro dos Seminaristas das Províncias Eclesiásticas de Maringá e Londrina. São esperados aproximadamente 150 seminaristas das etapas: Seminário Menor e Propedêutico, Filosofia e Teologia.

O encontro tem por objetivo uma maior troca de experiências entre os seminaristas das duas províncias. Estarão presentes os formadores dos seminários e os bispos das dioceses que compõem as duas províncias (Maringá, Paranavaí, Campo Mourão, Umuarama, Londrina, Cornélio Procópio, Apucarana e Jacarezinho). O primeiro encontro foi realizado em 2009 em Maringá no Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória.


A Arquidiocese de Maringá conta hoje com 23 seminaristas. Sendo: 10 no Seminário Propedêutico Santo Cura d'Ars (Mandaguaçú-Pr); 11 no Seminário Nossa Senhora da Glória (Maringá-Pr); e, 12 no Seminário de Teologia Santíssima Trindade (Londrina-Pr).

Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010: Um saldo positivo para o Brasil


De acordo com o pastor sinodal Carlos Möller, presidente do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC), a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010, apresenta um saldo positivo, superando a expectativa das Igrejas que compõem o CONIC.
Com o tema Economia e Vida e o lema "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24), a CFE 2010, de fato, trouxe uma grande contribuição ao país fazendo com que pessoas de vários segmentos religiosos pudessem despertar em si uma reflexão crítica acerca de um assunto tão polêmico e muitas vezes tão pouco discutido e avaliado por nós: economia. A importância dessa campanha reflete-se ainda, pelo fato, de nos encontrarmos em um ano eleitoral onde os nossos olhares devem estar voltados à forma como ocorre o investimento do dinheiro nas obras a ainda serem realizadas pelo governo atual, mas também no investimento que cada candidato há de fazer em sua campanha eleitoral.
Porém, vale aqui lembrarmos, que a Campanha da Fraternidade permanece latejante em nossa sociedade e não devemos deixar que ela se encerre, pois muitas vezes quando encerramos a Quaresma encerramos também as discussões vivas e eficazes que a Campanha da Fraternidade nos propõem. Devemos seguir nesse caminho de reflexão, porém, também de ação onde juntos sejamos capazes de fazer acontecer uma sociedade igual e humana para todos.

Leia mais:

terça-feira, 13 de abril de 2010

Dom Odilo Scherer fala sobre polêmicas atuais que a Igreja está vivendo


Muito mais que pedofilia

As notícias sobre pedofilia, envolvendo membros do clero, difundiram-se de modo insistente. Tristes fatos, infelizmente, existiram no passado e existem no presente; não preciso discorrer sobre as cenas escabrosas de Arapiraca... A Igreja vive dias difíceis, em que aparece exposto o seu lado humano mais frágil e necessitado de conversão. De Jesus aprendemos: “Ai daqueles que escandalizam um desses pequeninos!” E de S.Paulo ouvimos: “Não foi isso que aprendestes de Cristo”.

As palavras dirigidas pelo papa Bento XVI aos católicos da Irlanda servem também para os católicos do Brasil e de qualquer outro país, especialmente aquelas dirigidas às vítimas de abusos e aos seus abusadores. Dizer que é lamentável, deplorável, vergonhoso, é pouco! Em nenhum catecismo, livro de orientação religiosa, moral ou comportamental da Igreja isso jamais foi aprovado ou ensinado! Além do dano causado às vítimas, é imenso o dano à própria Igreja.

O mundo tem razão de esperar da Igreja notícias melhores: Dos padres, religiosos e de todos os cristãos, conforme a recomendação de Jesus a seus discípulos: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que eles, vendo vossas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus!” Inútil, divagar com teorias doutas sobre as influências da mentalidade moral permissiva sobre os comportamentos individuais, até em ambientes eclesiásticos; talvez conseguiríamos compreender melhor por que as coisas acontecem, mas ainda nada teríamos mudado.

Há quem logo tem a solução, sempre pronta à espera de aplicação: É só acabar com o celibato dos padres, que tudo se resolve! Ora, será que o problema tem a ver somente com celibatários? E ficaria bem jogar nos braços da mulher um homem com taras desenfreadas, que também para os casados fazem desonra? Mulher nenhuma merece isso! E ninguém creia que esse seja um problema somente de padres: A maioria absoluta dos abusos sexuais de crianças acontece debaixo do teto familiar e no círculo do parentesco. O problema é bem mais amplo!

Ouso recordar algo que pode escandalizar a alguns até mais que a própria pedofilia: É preciso valorizar novamente os mandamentos da Lei de Deus, que recomendam atitudes e comportamentos castos, de acordo com o próprio estado de vida. Não me refiro a tabus ou repressões “castradoras”, mas apenas a comportamentos dignos e respeitosos em relação à sexualidade. Tanto em relação aos outros, como a si próprio. Que outra solução teríamos? Talvez o vale tudo e o “libera geral”, aceitando e até recomendando como “normais” comportamentos aberrantes e inomináveis, como esses que agora se condenam?

As notícias tristes desses dias ajudarão a Igreja a se purificar e a ficar muito mais atenta à formação do seu clero. Esta orientação foi dada há mais tempo pelo papa Bento XVI, quando ainda era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Por isso mesmo, considero inaceitável e injusto que se pretenda agora responsabilizar pessoalmente o papa pelo que acontece. Além de ser ridículo e fora da realidade, é uma forma oportunista de jogar no descrédito toda a Igreja católica. Deve responder pelos seus atos perante Deus e a sociedade quem os praticou. Como disse S. Paulo: Examine-se cada um a si mesmo. E quem estiver de pé, cuide para não cair!

A Igreja é como um grande corpo; quando um membro está doente, todo o corpo sofre. O bom é que os membros sadios, graças a Deus, são a imensa maioria! Também do clero! Por isso, ela será capaz de se refazer dos seus males, para dedicar o melhor de suas energias à Boa Notícia: para confortar os doentes, visitar os presos nas cadeias, dar atenção aos abandonados nas ruas e debaixo dos viadutos; para ser solidária com os pobres das periferias urbanas, das favelas e cortiços; ela continuará ao lado dos drogados e das vítimas do comércio de morte, dos aidéticos e de todo tipo de chagados; e continuará a acolher nos Cotolengos criaturas rejeitadas pelos “controles de qualidade” estéticos aplicados ao ser humano; a suscitar pessoas, como Dom Luciano e Dra. Zilda Arns, para dedicarem a vida ao cuidado de crianças e adolescentes em situação de risco; e, a exemplo de Madre Teresa de Calcutá, ainda irá recolher nos lixões pessoas caídas e rejeitadas, para lavar suas feridas e permitir-lhes morrer com dignidade, sobre um lençol limpo, cercadas de carinho. Continuará a mover milhares de iniciativas de solidariedade em momentos de catástrofes, como no Haiti; a estar com os índios e camponeses desprotegidos, mesmo quando também seus padres e freiras acabam assassinados.

E continuará a clamar por justiça social, a denunciar o egoísmo que se fecha às necessidades do próximo; ainda defenderá a dignidade do ser humano contra toda forma de desrespeito e agressão; e não deixará de afirmar que o aborto intencional é um ato imoral, como o assassinato, a matança nas guerras, os atentados e genocídios. E sempre anunciará que a dignidade humana também requer comportamentos dignos e conformes à natureza, também na esfera sexual; e que a Lei de Deus não foi abolida, pois está gravada de maneira indelével no coração e na consciência de cada um.

Mas ela o fará com toda humildade, falando em primeiro lugar para si mesma, bem sabendo que é santa pelo Santo que a habita, e pecadora em cada um de seus membros; todos são chamados à conversão constante e à santidade de vida. Não falará a partir de seus próprios méritos, consciente de trazer um tesouro em vasos de barro; mas, consciente também de que, apesar do barro, o tesouro é precioso; e quer compartilhá-lo com toda a humanidade. Esta é sua fraqueza e sua grandeza!
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo

Artigo publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, ed. 11. 04.2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

XVI Congresso Eucarístico Nacional


Em 2010, o XVI Congresso Eucarístico Nacional (CEN) será realizado de 13 a 16 de maio e terá como tema Eucaristia, pão da unidade dos discípulos missionários e por lema Fica conosco, Senhor! (cf. Lc 24,29).

O Congresso Eucarístico Nacional será o ponto central das celebrações dos 50 anos da Arquidiocese de Brasília, que contarão também com uma retrospectiva histórica dos acontecimentos mais importantes da Arquidiocese como a primeira missa celebrada no marco inicial da construção da cidade em 1957 e o VIII Congresso Eucarístico Nacional, realizado em 1970.

Segundo Dom João Braz de Aviz, Arcebispo Metropolitano de Brasília, “para a Igreja, a realização do Congresso Eucarístico possibilita uma maior vivência da Eucaristia e é fonte inesgotável para a vida cristã, por isso deve haver um empenho para sua melhor realização”.

Papa: Cristãos não temam testemunhar a fé


Nesta segunda-feira, 5, o papa Bento XVI rezou a oração mariana do Regina Coeli que, neste período pascal, substitui o Ângelus.

Após a oração do Regina Coeli, o Papa saudou os fiéis e peregrinos em várias línguas, convidando-os a irradiar a alegria da Páscoa e a beleza da esperança cristã.

Leia mais: http://www.cnbb.org.br/site/imprensa/noticias/2857-papa-cristaos-nao-temam-testemunhar-a-fe

terça-feira, 6 de abril de 2010

RESSURREIÇÃO! É POSSÍVEL! UMA BOA NOVA PARA A ESPERANÇA!


A palavra ressuscitar traduz em português, em duas imagens; “fazer levantar, surgir” (anistai, em grego); ou então “fazer levantar, despertar” (égeirein, em grego). Estas expressões tem o sentido de exprimir a passagem da posição deitada para a posição de pé ou do sono para o despertar. A palavra ressurreição começou a indicar uma experiência que ia além de um simples “levantar-se” ou “acordar-se” de uma noite de sono; ressurreição começou a indicar uma experiência de fé, em que brota da certeza que Deus é fiel e não abandona os seus.

Desde o início, devemos cuidar para não pensarmos a existência depois da morte, em termos temporais; com nossa morte, as dimensões que nós conhecemos param de existir, nós somos desligados, pela ação de Deus de nossa sujeição às leis do tempo e espaço. Tempo e espaço só existem como parâmetros básicos no cosmo, no qual vivemos agora.

Em Deus, tempo e espaço não existem e não significa limitações; a dimensão da existência de Deus é aquela da eternidade, sem tempo e sem espaço; desta dimensão, nós participamos devido a nossa ressurreição, efetuada por Deus. Somente por causa dele, que após nossa morte paramos de ser sujeitos às leis cósmicas de tempo e espaço.

Na ressurreição, não existe antes e depois, nem passado ou futuro, pois o futuro que conhecemos está ligado ao tempo, mas o tempo na eternidade não existe. Como escreve o cardeal Danneels em sua carta pastoral em 1998, O ponto de vista da Igreja: “O assim dito intervalo de tempo entre a nossa morte e a ressurreição geral coletiva, é uma maneira defeituosa de pensar: ele existe somente a partir de nosso ponto de vista terreno. Na perspectiva divina, o tempo não existe. Mas, nós, só podemos pensar em termos temporais. Mesmo que nós tomamos como momentos distintos o nosso comparecer individual perante Deus, é o juízo final, tal distinção não consiste numa diferença de tempo”.

Com isso, o futuro deverá apresentar dois elementos dialéticamente, segundo Ruiz de La Peña: continuidade e novidade na ressurreição, “todo futuro autêntico terá de conter certa dose de continuidade”; consistindo a identidade. Para ser futuro, deverá também comportar o elemento novidade, para ele: “o elemento novidade, em suma, estranha o postulado do salto qualitativo, da ruptura do processo existencial”.

Assim, pois a validade dos modelos de futuro elaborado pelas diversas ideologias dependerá de sua aptidão para integrar harmoniosamente os momentos continuidade-novidade. Perante tal situação um futuro sem novidade é mera extrapolação do presente, e um presente sem continuidade é a negação do futuro.

Nesta perspectiva, Deus possibilita uma existência pessoal. Após a morte ocorre uma identidade que expressa uma continuidade; logo, a mesma pessoa que morre ressuscita; e a novidade é a pessoa que ressuscita possui uma condição existencial toda nova. Na situação de Cristo, seu corpo ressuscitado é idêntico, mas não igual ao corpo que conhecemos, o modelo da ressurreição de Cristo são as primícias de nossa própria ressurreição depois da morte.

Nos textos históricos sobre Jesus ressuscitado, a pessoa a qual Jesus se mostra não o reconhece a primeira vista; parece que ele não tinha mais a mesma forma exterior. Quando se apresenta pela primeira vez aos apóstolos, ele entra no local, apesar das portas e janelas estarem fechadas; tal característica, o corpo dele não tinha, antes da ressurreição. Ao se encontrar com Maria Madalena (cf João 20,14ss), ela o confunde com o jardineiro. Os discípulos de Emaús(cf Lc 24,13ss) pensam que é um transeunte; e no lago de Tiberíades, simplesmente não o reconhece.

Dessa maneira, mesmo os discípulos que conviveram anos com Jesus não o reconheceram. A aparência ou as características mudaram de tal maneira, que ele não é mais igual ao que era antes. Apesar disso, Jesus é idêntico àquele de ante de sua morte; contudo Jesus se manifesta de maneira específica, que torna sinal e prova de sua identidade; para Maria Madalena é uma única palavra: “Maria” (Jo 20,16), e ela reconhece: “É o Senhor”.

Para os discípulos, suas chagas, ou repetição do gesto eucarístico, ou ato da pesca milagrosa; que era gesto típico de Jesus, eles percebem sua identidade e dizem: “É o Senhor! É ele!”; não é outro ser; é o mesmo Jesus que eles conheciam, mas na sua forma de ressuscitado.

A ressurreição é ato inicial de uma nova maneira de existir; ela começa pela experiência de uma plena aplicação de nossa consciência, implicando a possibilidade de uma evolução atemporal, rumo a uma personalidade em completa sintonia com os parâmetros de Deus. Na concepção de Ruiz de La Peña: “fé na ressurreição não surge de uma elucubração conceitual; senão da reflexão dos crentes sobre uma circunstância histórica”. Portanto a ressurreição é a existência transformada e planificada pela presença do Deus Trindade.

Portanto, a ressurreição de Jesus se torna a base e a precondição de nossa esperança; ressuscitando a Jesus, o próprio Deus provou que é capaz de ressuscitar os mortos. Baseando em tais fatos, fica fundamentada a fé que Deus ressuscitará a pessoa humana da morte. Logo; o nosso destino final não é a morte, mas a continuação desta vida numa nova forma, que é transformada pelo próprio Deus.

Para fundamentar tal esperança, tem-se uma prova irrefutável, histórica e irrevogável: o fato de Deus ter ressuscitado Jesus. Ora, ressuscitando Jesus, o próprio Deus confirma as grandes esperanças bíblicas, no qual Deus não deixa os mortos na morte, e fundamenta a esperança de que Deus é fiel, e não abandona seu povo, e a esperança de que Deus é o Senhor da vida e não da morte.
Claudemir Ricardo da Silva
Seminarista 1º ano de Teologia

Homilia do Papa Bento XVI na Missa da Vigília Pascal


Uma antiga lenda judaica, tirada do livro apócrifo “A vida de Adão e Eva”, conta que Adão, durante a sua última enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva à na região do Paraíso buscar o óleo da misericórdia, para ser ungido com este e assim ficar curado.

Aos dois, depois de muito rezar e chorar à procura da árvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que não conseguiriam obter o óleo da árvore da misericórdia e que Adão deveria morrer. Em seguida, os leitores cristãos adicionaram a esta comunicação do arcanjo, uma palavra de consolação.

O Arcanjo teria dito que, depois de 5.500 anos, viria o benévolo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o óleo da sua misericórdia todos aqueles que acreditassem nele. “O óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descerá às profundezas da terra e conduzirá o teu pai ao Paraíso, para junto da árvore da misericórdia”.

Nesta lenda, faz-se palpável toda a aflição do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resistência que o homem oferece à morte: em algum lugar – repetidamente pensaram os homens – deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser possível encontrar o remédio não somente contra as diversas doenças, mas contra a verdadeira fatalidade – contra a morte.

Deveria, em suma, existir o remédio da imortalidade. Também hoje, os homens andam à procura de tal substância curativa.

A ciência médica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior número possível das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse quiçá não excluir totalmente a morte mas adiá-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de várias centenas de anos? Isto seria bom?

A humanidade envelheceria numa medida extraordinária; não haveria lugar para a juventude. A capacidade de inovação se apagaria e uma vida interminável não seria um paraíso, mas uma condenação. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. Não deveria levar simplesmente a uma prolongação indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior.
Deveria criar em nós uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que não terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em plenitude. A novidade impressionante da mensagem cristã, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda é, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este autêntico remédio da imortalidade existe.

Foi encontrado. É acessível. No Batismo, este medicamento nos é dado. Uma vida nova começa em nós, uma vida nova que amadurece na fé e não é cancelada pela morte da vida velha, mas só então se tornará plenamente visível.


Ouvindo isto alguns, quiçá muitos, responderão: a mensagem sim, eu escuto, mas falta-me a fé. E, mesmo quem quer acreditar perguntará: mas, é verdadeiramente assim? Como devemos imaginá-la? Como se realiza esta transformação da vida velha, de tal modo que nela se forme a vida nova que não conhece a morte? Mais uma vez, um antigo escrito judaico pode nos ajudar a ter uma idéia daquele processo misterioso que tem início em nós no Batismo.

Neste escrito se conta que o patriarca Henoc foi arrebatado até ao trono de Deus. Mas, ele se atemorizou à vista das gloriosas potestades angélicas e, na sua fraqueza humana, não pôde contemplar a Face de Deus. “Então Deus disse a Miguel – assim continua o livro de Henoc – 'Toma Henoc e tira-lhe as vestes terrenas. Unge-o com o óleo suave e reviste-o com vestes de glória! ' E, Miguel tirou as minhas vestes, ungiu-me com óleo suave; este óleo possuía algo mais que uma luz radiosa... O seu esplendor era semelhante aos raios do sol. Quando me vi, eis que eu era como um dos seres gloriosos” (Ph. Rech, Inbild des Kosmos, II 524).

Isto mesmo – ser revestidos com a nova veste de Deus – verivica-se Batismo; assim nos ensina a fé cristã. É verdade que esta mudança das vestes é um percurso que dura toda a vida. Aquilo que acontece no Batismo é o início de um processo que abarca toda a nossa vida –torna-nos capazes de eternidade, de tal modo que, na veste de luz de Jesus Cristo, podemos aparecer diante de Deus e viver com Ele para sempre.

No rito do Batismo, há dois elementos nos quais este evento se expressa e torna visível, também como exigência para o resto da nossa vida. Em primeiro lugar, temos o rito das renúncias e das promessas. Na Igreja Antiga, o batizando virava-se para ocidente, símbolo das trevas, do pôr do sol, da morte e, portanto, do domínio do pecado. O batizando virava-se para aquela direção e pronunciava um tríplice “não”: ao diabo, às suas pompas e ao pecado.
Com a estranha palavra “pompas”, ou seja, o fausto do diabo, indicava-se o esplendor do antigo culto dos deuses e do antigo teatro, onde a diversão era ver pessoas vivas sendo dilaceradas pelas feras.

Portanto, isto era o repúdio de um tipo de cultura que acorrentava o homem à adoração do poder, ao mundo da cobiça, à mentira, à crueldade. Era um ato de libertação da imposição de uma forma de vida que se apresentava como prazer e, contudo, levava à destruição daquilo que no homem são as suas qualidades melhores. Esta renúncia – com um comportamento menos dramático – constitui ainda hoje uma parte essencial do Batismo.
Assim removemos as “vestes velhas”, com as quais não se pode estar diante de Deus.

Melhor dito: começamos a depô-las. Com efeito, esta renúncia é uma promessa na qual damos a mão a Cristo, para que Ele nos guie e revista.

Quais sejam as “vestes” que depomos e qual seja a promessa que pronunciamos fica claro quando lemos, no quinto capítulo da Carta aos Gálatas, aquilo que Paulo denomina “obras da carne” – termo que significa precisamente as vestes velhas que devem ser depostas. Paulo as designa assim: “fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas” (Gal 5, 19ss). São estas as vestes que depomos; são vestes da morte.

Em seguida, o batizando na Igreja Antiga se virava para oriente – símbolo da luz, símbolo do novo sol da história, novo sol que se levanta, símbolo de Cristo. O batizando determina a nova direção da sua vida: a fé em Deus trino, a quem ele se oferece. Assim, o próprio Deus nos veste com o traje de luz, com a veste da vida. Paulo chama a estas novas “vestes” “fruto do Espírito” e as descreve com as seguintes palavras: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência” (Gal 5, 22).

Na Igreja Antiga, depois o batizando era verdadeiramente despojado das suas vestes. Descia à fonte batismal e era imerso por três vezes – um símbolo da morte que significa toda a radicalidade deste despojamento e desta mudança de veste. Esta vida, que em todo o caso já está voltada à morte, o batizando a entrega à morte, junto com Cristo, e por Ele se deixa arrastar e elevar para a vida nova, que o transforma para a eternidade.

Depois subindo das águas batismais, os neófitos eram revestidos com a veste branca, a veste luminosa de Deus, e recebiam a vela acesa como sinal da vida nova na luz que Deus mesmo acendera neles. Eles sabiam que tinham obtido o remédio da imortalidade, que agora, no momento de receber a sagrada Comunhão, tomava a sua forma plena. Na Comunhão, recebemos o Corpo do Senhor ressuscitado e nós mesmos somos atraídos para este Corpo, de tal modo que ficamos já guardados por Aquele que venceu a morte e nos conduz através da morte.

No decorrer dos séculos, os símbolos tornaram-se mais escassos, mas o acontecimento essencial do Batismo continue sendo o mesmo. Este não é apenas um lavacro, e menos ainda uma recepção um pouco complicada numa nova associação. O Batismo é morte e ressurreição, renascimento para a nova vida.

Sim, a erva medicinal contra a morte existe. Cristo é a árvore da vida, que se fez novamente acessível. Se aderimos a ele, então estamos na vida. Por isso, nesta noite da ressurreição, cantaremos com todo o coração o aleluia, o canto da alegria que não tem necessidade de palavras. Por isso Paulo pode dizer aos Filipenses: “alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4, 4).
Não se pode comandar a alegria. Somente pode ser dada. O Senhor ressuscitado nos dá a alegria: a verdadeira vida. Já estamos protegidos para sempre guardados no amor daquele a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Assim, seguros de ser escutados, peçamos como diz a oração sobre as oferendas que a Igreja eleva nesta noite: Acolhei, ó Deus, com estas oferendas as preces do vosso povo, para que a nova vida, que brota do mistério pascal, seja por vossa graça penhor da eternidade. Amém.

sábado, 3 de abril de 2010

Sexta-feira Santa: Lembrete de Sofrimento e Vida


Nesta como em toda Sexta-feira Santa, somos convidados a refletir sobre o sofrimento, a morte e o sacrifício de Cristo, mas não só dele. Também nós, filhos de Deus, temos momentos de dor e angústia. Como os enfrentamos? O que eles significam? Podemos transformá-los?

Para São Paulo foi a cruz de Cristo que derrubou o muro de separação, reconciliou os homens com Deus e entre si, destruindo a inimizade (cf. Ef 2,14-16). Partindo desse ponto a antiga tradição desenvolveu "o tema da cruz como árvore cósmica que, com o braço vertical, une céu e terra e, com o braço horizontal, reconcilia entre si os diversos povos do mundo".

Dessa novidade nasce o sentimento da cruz como glória e louvou do cristão e não como castigo. Ela é nossa seurança, razão de gratidão: "Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo" (Gl 6,14).

Essa teologia de Paulo colocou a cruz no centro da Igreja. Ela se tornou fundamento, mastro e centro de gravidade do anúncio cristão. Os evangelhos, depois de Paulo, também fizeram da Paixão e Morte de Cristo a base sobre a qual tudo está fixado.

O sofrimento fez parte da vida do homem-Deus e faz parte da vida de cada pessoa. Não é "privilégio" de pobres, de inocentes, de depressivos, de discriminados, de crentes. Todos sofremos. E é necessário cada pessoa descobrir como conviver com o sofrimento transformando-o em vida, ou seja, é preciso deixar que o sofrimento nos transforme, nos ensine e ele mesmo se mude em vida mais plena. O exemplo de Cristo é emblemático, abraçou a cruz, sofreu até a morte e transfigurou a imagem do pior tipo de morte em imagem de vida plenificada, ressuscitada. Sem Cruz não há ressurreiçaõ!

"Com sua morte, Cristo não somente vnceu o pecado, mas também deu um sentido novo ao sofrimento, também aquele que não depende do pecado de ninguém. Fez-lhe instrumento de salvação, um caminho àressurreição e à vida. Seu sacrifício exercita seus efeitos não através da morte, mas sim, graças à superação da morte, isto é, à ressurreição. "Morreu pelos nossos pecados, ressuscitou pela nossa justificação" (Rm 4,25): os dois eventos são inseparáveis no pensamento de Paulo e da Igreja". (CANTALAMESSA, vatican.va)

Lembremos que o que Cristo realiza é um sacrifício, mas essa palavra não pode ter apenas aquele sentido doloroso ao qual estamos acostumados. Sacrifício vem do latim sacrum facere que significa fazer sagrado, tornar sagrado. Sacrifício não é simplesmente a dou ou a penitência, é especialmente a sacralização com que cada cristão pode agir e viver.

Vivamos orientados para essa direção. Sejamos guiados pela Cruz. Sejamos redimidos pela cruz de Cristo e pela nossa. Sacralizemos nossa vida e o mundo, cumprindo nossa missão de cristãos.


(Matéria parcialmente baseada na HOMILIA DO PADRE RANIERO CANTALAMESSA. Disponível em <http://www.vatican.va/liturgical_year/holy-week/2009/documents/holy-week_homily-fr-cantalamessa_20090410_po.html%3E Acesso em 20 mar 2010).


Marcos André de Oliveira
Seminarista 4º ano de Teologia

A Missa da Ceia do Senhor com Lava-pés


Ao longo do ano, a Igreja comemora em dias determinados a obra salvífica de Cristo. Assim como o Cristo realizou a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus principalmente pelo seu Mistério Pascal (quando morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando renovou a vida), o Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor resplandece como o ápice de todo o Ano Litúrgico (Normas Universais do Ano Litúrgico e Calendário Romano Geral, n. 18).

Com a Missa vespertina na Ceia do Senhor - in Coena Domini - a Igreja, ao mesmo tempo em que dá início ao Tríduo pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor (Idem, n. 19), recorda aquela última ceia em que "o Senhor Jesus, na noite em que ia ser tríado, tendo amado até o extremo os seus que estavam no mundo, ofereceu a Deus Pai o seu Corpo e Sangue sob as espécies do pão e do vinho e deu-os aos apóstolos como alimento, e ordenou-lhes, a eles e aos seus sucessores no sacerdócio, que fizessem a mesma oferta" (Cerimonial dos Bispos, n. 297).

Esta missa recorda, sobretudo, três mistérios: a instituição da Eucaristia; a instituição da Ordem sacerdotal e o mandamento do Senhor sobre a caridade fraterna (Paschalis Sollemnitatis, n. 45). Segundo Julián López Martín, as prescrições que proíbem a celebração da missa sem o povo e recomendam vivamente a concelebração, conferem um nota de eclesialidade eucarística e de unidade entre eucaristia e sacerdócio. Mesmo o lava-pés (expressão do serviço e da caridade de Cristo que veio para servir e não para ser servido - cf. Mc 10,45) está orientado para a eucaristia (A Liturgia da Igreja, p. 347).

Com efeito, sacerdócio e caridade estão estritamente ligados com o sacramento da eucaristia compreendido em sua globalidade e de modo mais preciso. O translado solene do Santíssimo Sacramento para o lugar da reserva para a comunhão do dia seguinte é um sinal de continuidade entre o Sacrifício e a adoração da presença sacramental (Ibidem, p. 348).



Edivaldo Rossi Gonçalves
Seminarista 2º ano de Teologia

A Ceia!


"Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado
a sua hora de passar deste mundo para o Pai;
tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13,1)


Jesus assume conscientemente sua missão de unir a terra e o Céu pelo sacrifício da Cruz, pois Ele sabia que tinha chegado a sua hora, e mesmo assim não tem medo, ao contrário, até mesmo antecipa a sua auto-doação total para o momento da Última Ceia. No versículo 3 do mesmo capítulo desse Evangelho, João ressalta que Ele "sabendo" que o Pai tudo lhe dera nas mãos... levanta-se da mesa e, ao depor as vestes, começa a lavar os pés de seus queridos.

Quando Jesus quer fazer da Eucaristia esse momento sublime, na noite anterior à sua morte incruenta (sem derramamento de sangue), Ele quer antecipar esse grande ato de amor por nós. Tal antecipação ocorre misteriosamente, o que mostra que não há problema algum para o poder de Deus atualizá-lo depois da Cruz, como ocorre em cada Santa Missa que celebramos desde a Morte do Senhor. Se Ele pôde antecipar sua doação de amor antes, também pode atualizá-lo depois, para fazermos isso tudo em sua memória.

Neste dia, em nossas paróquias, costumamos lembrar a Missa da Quinta-feira Santa como a "MIssa do Lava-pés" - o que é uma grande verdade - porém, não podemos nos esquecer do grande e sagrado MMistério central de nossa fé católica, que é a Eucaristia, ou Ceia do Senhor. Mesmo no Evangelho que ouvimos neste dia, percebemos que Jesus levanta-se da mesa e, terminando o gesto caritativo do serviço, "depois de lhes lavar os pés e tomar as suas vestes, sentou-se novamente à mesa (...)" (Jo 13,12).

Isso nos impulsiona a crer que a Eucaristia é mesmo o centro de toda a nossa vida e de nossa fé, pois o Nosso Senhor pauta o serviço nesta mesa e volta a essa mesa terminando o serviço. O serviço aos pobres, portanto, tem agora novo sentido: a doação total de si que fez o nosso amado Jesus, antecipada na Ceia da Quinta-feira Santa e plenamente realizada na Sexta-feira da Paixão.

Essa Ceia nos renova no dia de hoje, a última noite de sua vida mortal. Essa Ceia nos prepara para vivermos eternamente com Nosso Senhor, onde seremos saciados na Ceia do seu Reino.

Obrigado, meu Senhor, por seu Sagrado Corpo e seu Preciosíssimo Sangue, eles lavam minha iniquidade e me unem ainda mais ao Seu Amor imenso, de uma vez por todas, agora e para toda o sempre. Amém.


Rodrigo Gutierrez Stabel
Seminarista 3º ano de Teologia