sexta-feira, 12 de setembro de 2014

EVANGELHO DE LUCAS

Lucas é o autor do terceiro evangelho e dos Atos dos Apóstolos. Obra escrita por volta dos anos 80-90, há várias hipóteses sobre o lugar que fora escrito: Alexandria, Roma, Grécia, Acaia, Beócia, Cesaréia, mas todos concordam que seus destinatários são pagãos. Sabemos que Lucas era pagão até o ano 42 quando se converteu ao cristianismo. Não conheceu Jesus Cristo pessoalmente. Foi discípulo e companheiro de Paulo nas viagens apostólicas sendo conhecido como o “médico amado” (cf. Cl 4,14; 2Tm 4,11; Fm 24; At 16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16). Sua escrita é elegante e bem elaborada; evangelho escrito na língua koiné.
Como Mateus parte do evangelho de Marcos e da fonte Logienquelle, Q, além das fontes próprias. Tendo grande preocupação social se dedica bastante aos necessitados (7,11; 10,33; 15,11; 19,2; 24,13). Como escreve para pagãos não se preocupa em descrever o cenário judaico, da Palestina, e prefere omitir fatos que possam escandalizá-los. A Bíblia de Jerusalém propõe a divisão do evangelho do seguinte modo: há um prólogo a quem Lucas o dedica: ao “Teófilo” (1,1-4), nascimento e vida oculta de João Batista e de Jesus (1,5-2,52), preparação do ministério de Jesus (3,1-4,13), ministério de Jesus na Galiléia (4,14-9,50), a subida para Jerusalém (9,51-19,27), ministério de Jesus em Jerusalém (19,28-21,38), a paixão (22,1-23,56), após a ressurreição (24,1-53).
Lucas é um evangelista que se dedica a caminhada à Jerusalém (2,22.41-45; 4,9; 9,31.51.53; 13,22.33-35; 17,11; 18,31; 19,11.28; 21,20-24; 23,7.28; 24,13-33.47.52). Dá destaque ao Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade (1,15.35.41.67; 2,25-27; 4,1.14.18; 10,21; 11,13; 24,49). A imagem de Jesus vai aos poucos se formando à medida que vai se manifestando como o Filho de Deus encarnado. Apresenta a história da salvação (cf. 16,16) em três etapas: o tempo do Antigo Testamento (Lei e Profetas), o tempo de Jesus e o tempo da Igreja.
Lucas inicia seu evangelho falando da infância de João Batista e de Jesus (1,5-2,52). Recorre a interpretação primitiva do ungido régio-davídico (1,27.32-33), seu nascimento em Belém o faz ser “da casa e da descendência de Davi” (1,27.32-33.69; 2,4.11; 3,31; 6,3; 18,38.39; 20,41-44). Os anjos o proclamam como “Salvador, Messias e Senhor” (2,11). Diferente de Mateus, Lucas narra a genealogia de Jesus, após o batismo, que vai de José a Adão (3,23-38). O batismo também tem caráter messiânico como Marcos e Mateus e igualmente ocorre uma teofania: “o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal, como pomba. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho, eu, hoje, te gerei!’” (3,21b-22). Esta cena está associada ao Rei-Messias do Sl 2,7 e não tem perspectivas do “Servo do YHWH”.
Seguindo a lógica da linha régio-davídica, na primeira aparição pública de Jesus em Nazaré (4,14-20), percebemos a consciência de Jesus de ser o Messias prometido (1,35; 2,11.26; 3,21-22; 4,41; 9,20; At 4,27; 10,38) conforme a unção do Espírito ao aplicar para si a leitura do profeta Is 61,1-2. Lucas quer, por assim dizer, salientar a atuação do Espírito na missão de Jesus em palavras e nos atos, retomando a linha profética (3,21-22; 4,1.4; 9,8-9.19-20; At 1,16; 2,25-28.31; 3,20-26). Jesus vai aos poucos se revelando como o salvador enviado por Deus (4,23; 5,17; 9,11) aos necessitados. Jesus transmite a paz e a graça de Deus (4,22; 6,31-38; 15,11-32; At 14,13; 15,11). Prova disso é quando João Batista, na prisão, manda seus discípulos a Jesus e perguntam se ele era o Cristo. A resposta de Jesus vai ao encontro das promessas da vinda do Messias (Lc 7,18-23; cf. 26,19; 35,5-6; 42,7; 61,1). Segundo, Fabry e Scholtissek, Lucas interpreta o sofrimento do Messias na boca de “todos os profetas”, “nas Escrituras” e “nos profetas e Moisés” (Lc 24,44-45).
O título de “Salvador” está numa perspectiva de salvação, vinda da descendência de Davi, pois Israel coloca nele a confiam (1,47.69.71.74; 1Tm 1,1; 2,3; 4,10; 2Tm 1,10; Tt 1,3-4; 2,10.13; 3,4.6). Colocar em Jesus este título é recorrer à tradição da septuaginta que também expressa no YHWH este caráter de salvação (Is 45,15.21-24; 1Mc 4,30). No mundo helenista várias personalidades dispunham deste título. Lucas ao escrever nesta cultura se apropria desta ideia e contrapõe com a imagem de César Augusto que também era visto como salvador. Uma criança recém-nascida é o Salvador. Entretanto, “Salvador” é incorporado na cultura salvífica judaica do Messias. Deste modo, o título tem ligação com o mundo helênico e com o mundo judeu e a mensagem tripartite do anjo aos pastores atingem gentios e judeus.

O segundo título atribuído a Jesus por Lucas é “Messias”. Vem da tradição judaica de dignidade real e concedida por Deus (2,26; 4,18; 9,20). Lucas quer passar a imagem do Cristo sofredor e daquele que morre (24-26; cf. 1Cor 15,3-5). Está associado com a imagem de “Filho do Homem” e de “Filho de Deus” (21,27; 22,30). Desde o nascimento Jesus é o Messias, perpassando toda sua vida até sua vinda (parusia). Por fim, o título de “Senhor” está vinculado ao Pai majoritariamente e a Jesus ocorrendo em duas ocasiões (2,11 e 1,43). Lucas quer chamar a atenção para a criança proclamada Salvador, Messias e Senhor em relação ao imperador romano. Esta imagem junto à cena da ressurreição remete ao Sl 110,1: Deus o constitui Senhor (Messias e Redentor).

Gerson Bris Siqueira

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