sábado, 6 de setembro de 2014

EVANGELHO DE MARCOS

O Evangelho de Marcos foi escrito por volta dos anos 70, na cidade de Roma, seus destinatários são cristãos convertidos. A Bíblia de Jerusalém divide o evangelho em cinco blocos: a preparação do ministério de Jesus (1,1-13); O ministério de Jesus na Galiléia (1,14-7,23); Viagens de Jesus fora da Galiléia (7,24-10,52); O ministério de Jesus em Jerusalém (11,1-13,37); A paixão e a ressurreição de Jesus (14,1-16-20). Os últimos versículos do capítulo dezesseis (vv.9-20) não são atribuídos a Marcos, mas é um apêndice da comunidade cristã para dar fechamento ao evangelho.
Marcos fala dos pormenores, não se preocupando com estilo literário, geográfico ou lógico. Acreditou-se, desde muito cedo, que fora o interprete de Pedro. Estas tradições são antigas: Papias (14-15), no início do século I e Justino, pelo ano 150. Muitos acreditam ser o jovem citado em 14,51-52 e em 1Pd 5,13. É identificado como João Marcos, de Jerusalém, primo de Barnabé, o companheiro de Paulo; Jesus e os discípulos se reuniam no andar de cima, provavelmente a casa de sua mãe (cf. At 12,12.25; 13,5.13; 15,37.39; Cl 4,10; 2Tm 4,11 Fm 24). Segundo Mauro Odoríssimo, Marcos não quer fazer história de Jesus, embora parta de fatos históricos. Seu objetivo é a fé, podendo ver os fatos alterados para facilitar a aceitação do Senhor; quer narrar à histórica salvífica.
O autor sagrado dividiu seu evangelho em duas partes. A primeira parte é o ministério na Galiléia (1,2-10,52) descobrimos quem é Jesus de Nazaré; o Cristo, o Rei do novo povo de Deus que culmina na profissão de fé de Pedro: “Tu és o Cristo” (8,29). A segunda parte é o ministério na Judéia (11,1-16,8) somos orientados para a morte de Jesus que culmina na profissão de fé do centurião: “Verdadeiramente este homem era filho de Deus” (15,39). Se de um lado temos a profissão de fé de um discípulo e de outro de um gentio é para fazer referência ao início do evangelho que diz: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, filho de Deus” (1,1).
Quando Marcos menciona: “Evangelho de Jesus Cristo” podemos concluir que, seus destinatários tinham certa familiaridade com o nome composto, pois é um título de dignidade.  O aposto “Filho de Deus” é original da crítica textual presente nos escritos de Irineu, Ambrósio, Cromácio, Jerônimo, Agostinho e Fausto-Milevis. O objetivo do evangelho é mostrar em que sentido Jesus é o “Cristo”, o “Filho de Deus”; utiliza citações veterotestamentárias: Ex 23,20; Ml 3,1; Is 40,3. Sua pregação é em forma de anúncio. Aquelas passagens fazem parte da pregação de João Batista (cf. Mc 1,2-3). Aos poucos o evangelista vai mostrando quem é Jesus e revelando sua identidade messiânica.
Depois do batismo de Jesus, no rio Jordão, ocorre uma teofania (1,9-11). Jesus recebe o Espírito Santo que o constitui Rei e lhe dá a missão do Servo do YHWH. A voz vinda dos Céus faz referências às passagens de Sl 2,6-7; Is 42,1-4. Sendo Jesus, Rei e Servo do YHWH é “ungido”, tornando-se, por assim dizer, “Cristo” (cf. 1Sm 16,13; Sl 2,2; Is 42,1; 61,1; At 10,38). Sendo Rei, Jesus inicia sua batalha contra Satanás (1,12-13) e como Servo do YHWH ensina as multidões e expulsa os demônios (1,27.39; 2,2; 3,11.14-15; 6,2.12-13.34). O fechamento do prólogo acentua a proclamação do Evangelho, o anúncio do Reino de Deus e o chamado dos primeiros discípulos.
A primeira parte do Evangelho, Marcos dá a compreensão da messianidade de Jesus pelos acontecimentos autorizados da aproximação do Reino de Deus pelo chamado dos primeiros discípulos (1,16-20; 2,14), pela autoridade do seu ensinamento em palavras e atos (1,21-28), nas controvérsias e conversas didáticas (2,1-3,6; 3,20-35; 7,1-23; 8,14-21; 8,27-10,52), nas parábolas (4, 1-34), pelas curas e restabelecimento da criação (7,37), por fim, pelas promessas de perdão dos pecados e pela constituição dos Doze percebemos a relação entre Filho de Deus e o reinado de Deus.
Como que no centro do Evangelho temos a pergunta de Jesus: “Quem dizem as pessoas que eu sou?” (cf. Mc 8,27). É a primeira vez que Jesus faz esta pergunta, antes foram as pessoas que haviam feita (1,27; 2,7; 4,41; 6,2-3). Pedro não tem a opinião dos discípulos e diz: “Tu és o Cristo” (8,29). A ordem de silêncio é para confirmar a cena da Transfiguração (9,2-10) e mais tarde a profissão do centurião romano. Jesus quer mostrar o seu caminho dando ensinamentos particulares aos discípulos (8,27-10,52), mostrando que está disposto a servir e que devem fazer o mesmo (9,33-50-10,35-45). Este silêncio querido por Jesus é recomendado aos demônios, aos curados, aos discípulos fazendo parte do chamado “segredo messiânico”, devendo ficar oculto até a Ressurreição (9,9), pois só podem ser descobertos à luz do anúncio e da fé pascais. Neste caminho reconheceremos Jesus.
Caminhando para a segunda parte do Evangelho, Jesus assume seu calvário, missão constitutiva de sua messianidade (cf. 1,14; 2,7; 3,6). Sua entrada em Jerusalém é triunfante e com caráter messiânico (11,1-11; 2Rs 9,13; Zc 9,9-10). Percebemos a narrativa dos últimos dias de vida de Jesus. O fato que prepara sua morte é a expulsão dos cambistas do Templo (11,15-19; Zc 14,21). As autoridades tentam matá-lo, porém, têm medo das multidões (11,18; 12,12). Jesus é preso e seus discípulos saem em fuga (14,50); é apresentado a Pilatos como rei de “fantasia” (15,2.9.12.17-20). Sua morte não é vista como abandono da parte de Deus porque faz referencia a Sb 2,18 e no Dia da Páscoa, o anjo confirma a profissão de fé do centurião (16,6). Jesus Cristo, o Filho de Deus, recebe a investidura conforme Dn 7,13-14 e voltará para reunir os eleitos no Reino de Deus (13,26).

Gerson Bris Siqueira

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