terça-feira, 9 de setembro de 2014

O EVANGELHO DE MATEUS

O evangelho de Mateus foi o segundo evangelho a ser escrito. Utilizou o evangelho de Marcos como base, fazendo algumas adaptações, corrigindo e ampliando algumas partes. Dispunha de fontes próprias e da fonte Logienquelle, Q. Escreveu por volta dos anos 80 para as comunidades judaico-cristãs (Jerusalém, Pela, Decápole, Fenícia, Síria e Antioquia). Uma tradição do século II, com Papias (16), acredita ser o Mateus do cap. 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15; At 1,13 e o Levi de quem falam Mc 2,14; Lc 5,27-29, conhecido como o “publicano”. Acreditou-se na existência de um primeiro evangelho de Mateus em aramaico. É posto como o primeiro no rol pela sua abrangência, ou seja, pelo anúncio das promessas do Antigo Testamento como cumpridas em Jesus Cristo.
Sendo Mateus um grande conhecedor da Lei e dos costumes judaicos escreve seu evangelho entorno do Antigo Testamento. Percebemos nos seus escritos algumas passagens que se repetem: “quando Jesus terminou este discurso...” (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1). Elas encerram os grandes discursos de Jesus/Mestre. Com isso, descobriu-se que o evangelho é composto de cinco partes ou “livrinhos”. A Bíblia de Jerusalém os dividem do seguinte modo: a promulgação do Reino dos Céus (3,1-7,29), a pregação do Reino dos Céus (8,1-11,1), o mistério do Reino dos Céus (11,2-13,53), a Igreja, primícias do Reino dos Céus (13,53-19,1), o advento próximo do Reino dos Céus (19,2-26,1). Esta estrutura segue a composição do Pentateuco, dos cinco livros dos Salmos e os cinco livros que compõem o Megillot (Rute, Cânticos, Lamentações, Eclesiastes e Ester). Cada livro consta de duas partes: uma narrativa e uma didática.
Diferente de Marcos, Mateus inicia seu evangelho pela genealogia de Jesus inserindo-o na história da salvação e da promessa feita a Israel. “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (1,1). As gerações são contadas em catorze em catorze, de Abraão a Davi, de Davi ao exílio na Babilônia, do exílio na Babilônia até Cristo (1,1-17). Mateus trabalha muito com a cabala. Se somarmos as letras do nome de Davi (dwID)' temos o equivalente a catorze; isso para dizer que Jesus Cristo é três vezes mais que o rei Davi. O “Cristo” é uma atribuição a Jesus (cf. 1,1.16.18; 27,17.22). Outra consideração sobre “Jesus Cristo” se refere ao seu nascimento (1,16.19-25). O filho de Maria é “do Espírito Santo”, o significado de Yehoshua é YHWH é salvação ou “ele que salvará o seu povo de seus pecados” (1,21). Junto ao significado do nome, Mateus acrescenta uma profecia do profeta Isaías 7,14; 8,8-10. Emanuel, “Deus está conosco” (cf. 1,23; 18,19-20; 28,16-20).
Schnackenburg mostra que Mateus tinha em mente fazer como Marcos: “Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (cf. Mc1,1). Mas fica claro esta intenção ao afirmar que Jesus nasceu de Maria, sendo concebido pelo Espírito Santo, tendo verdadeira origem em Deus, Deus o chama do Egito (1,16.20; 2,15). A tentação do demônio é para testar sua filiação divina (4,3.6). Mateus quer apresentar Jesus como “Filho de Deus”. Na teofania do batismo, Jesus é o “Filho amado” (3,17). Sua autoridade é a mesma do “Filho de Deus” (7,29), a profissão de fé dos discípulos na barca (14,33), até mesmo a profissão de Pedro está ligada ao tema (16,16), os demônios o reconhecem (8,29), e a íntima relação do Filho com Deus, o Pai (11,25-27). A relação com o Pai cria a autoridade no céu e na terra (28,18).
É interessante notar que as autoridades judaicas, Satanás e os escarnecedores não conseguiram romper a união do Pai com o Filho (27,40.43; cf. Sl 22,9; Sab 2,16-18; 5,4). Toda a procura de Mateus em afirmar que Jesus é o filho de Deus tem seu cume na grande entrega ao Pai e na profissão de fé do centurião (27,50-54). O evangelista também apresenta-nos Jesus como “Servo de Deus” que cura os doentes (cf. Is 53,4; Mt 4,23; 8,17; 9,35; 12,15; 14,34-36; 15,29-31). Na verdade, o “Servo de Deus” é o “Filho de Homem” que vence o demônio possibilitando a atuação do Reino de Deus até sua vinda gloriosa (16,28; 19,28; 24,30; 25,31) e este é o “Filho de Deus” (16,13.16; 26,63).
Toda vez que Mateus utiliza o termo “Filho do Homem” está numa linguagem escatológica (13,41; 19,28; 24,30; 25,31). Seu estilo de vida provoca escândalos; sua vida está orientada para a colheita final e para a comunidade (8,20; 9,6; 11,19; 12,8; 13,37; 20,28; 25,31-46). O “Filho do Homem” é também o “Cristo” (24,29-31; 26,63). Ao ouvir falar das “obras de Cristo” (11,2), João Batista interroga sobre sua identidade. A resposta de Jesus vai ao encontro das profecias, não precisa esperar outro, Ele chegou! (Is 26,19; 29,18; 35,5-6; 42,7; 61,1-2).

Gerson Bris Siqueira


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